Novembro 2, 2009

A caneta e o papel

Tenho internet ilimitada à minha disposição todo os dias. Tenho os endereços de email de amigos que não moram na cidade, não moram no Estado, não moram no País. Mantenho contato com eles pelo Orkut, pelo MSN e pelo Facebook. Ainda assim, nada tira de mim a satisfação de sentar na mesa da cozinha e ficar rodeada de papéis, envelopes, cartões e recortes coloridos.

Escrever cartas é uma das coisas que mais gosto de fazer – está no mesmo nível de ler e ouvir música. Uma vez, expliquei para um amigo que mora no Interior porque preferia as missivas ao email: nada substitui o sentimento expresso somente na caligrafia, pelas letras cuidadosamente desenhadas sobre o papel.

Embora enviar email seja mais prático e rápido, o ato [faça você essa reflexão] está sempre associado a outras atividades no computador – à pesquisa do Google, à leitura de emails e dos  posts do Twitter… Já escrever cartas é um ato único e prioritário: tudo à nossa volta, desde a escolha do papel no qual escrever até a confecção do envelope [outra coisa muito legal em escrever cartas é deixar a criatividade fluir e inventar envelopes diferentes] é dedicado exclusivamente a essa atividade.

Além do prazer em si, escrever cartas traz ainda outro “benefício”: mantém a caligrafia. Já ouvi várias pessoas relatando que suas letras se descaracterizaram após anos de uso intenso do teclado do computador. A máquina nos desacostuma ao papel e à caneta! Na faculdade, ouvi o engraçado relato de uma amiga que, frente a um trabalho que deveria ser entregue escrito à mão, primeiro digitou e depois, consultando a tela, copiou o que tinha escrito no Word para a folha de papel.

Confesso que tenho muita aproximação com o computador, mas procuro sempre alimentar a prática da escrita de cartas para me desligar um pouco do mundo e focar a atenção em só uma janela: aquela que me remete para o pensamento e para as expectativas dos amigos ansiosos por receber um envelope selado e carimbado.

Outubro 24, 2009

Embrutecer em Fortaleza

Este parece não ser um processo nem muito difícil nem muito longo quando se vive em Fortaleza.

Aprendi, quando criança, que se deve sempre cumprimentar as pessoas com bons dias, boas tardes e boas noites. E assim o faço até hoje. Deveria ser uma coisa de praxe, mas parece que não é. Nunca pensei que veria uma pessoa se surpreender ao receber um simples olá. Aconteceu na última sexta em um supermercado. Cheguei para pagar as compras e disse olá para a caixa.

- Já sou tão acostumada a não ser cumprimentada que nem falo mais nada. Quando cumprimentava um cliente, ele não respondia – desabafou a moça.

Por conta dessa indiferença das pessoas umas com as outras, presenciamos esses processos de embrutecimento. Vai ver até o motorista e o cobrador das topics lidam com a indiferença dos outros e, por isso, são grossos daquele jeito que contei no último post. Vai ver aconteceu a mesma coisa com o cobrador de um ônibus que peguei hoje, que duvidou que eu tivesse pago a passagem mediante crédito inserido na carteira de estudante e me chamou de arrogante por eu ter-lhe dito que ele é quem teria de ter visto no GET [a máquina que lê o cartão] o desconto da passagem.

Não deveria ser assim, mas é incrível como o ato de  cumprimentar é capaz de mudar as feições de uma pessoa nessa cidade, especialmente daquelas que estão ali prestando um serviço tão rápido – no caso dos caixas de supermercado. Tenho um amigo que, além de provocar essa mudança no semblante desses profissionais, ainda provoca risos neles. Estou certa que isso contribui – e muito- para que o dia deles fique mais feliz.

Às vezes, me parece que os cidadãos dessa cidade procuram cada vez mais se isolar – e esse isolamento começa justamente nessa ausência de diálogo, na ausência de um simples olá. E o mais triste é que esse tipo de comportamento não requer nenhum esforço – é somente um reflexo de educação.

Não entendo o que se passa na cabeça das pessoas que agem assim. Daqui a algumas décadas, se as coisas continuarem nesse rumo, perderemos nosso cartaz de povo simpático e receptivo.

Outubro 22, 2009

Sem emoção, motorista

Aí vai uma charadinha: qual motorista é capaz de ser indelicado, não ter qualquer gentileza no trânsito, correr a mais de 60 km/h, passar a marcha e frear bruscamente e quase causar dois acidentes – tudo ao mesmo tempo? Quem usa o transporte alternativo de Fortaleza, certamente, soube a resposta já nas primeiras três pistas.

Utilizo [ou seria melhor dizer sofro?] na Topic 54 desde 2004, quando fazia cursinho no Benfica. As aulas terminavam por volta das 22h30min e, àquela hora, passava a última topic da noite. A lotação era inevitavel.

Mas pior do que isso era ficar ouvindo do cobrador: “Pessoal, por gentileza, vamos afastar aí pra trás, que tem espaço”. A concentração de gente por metro quadrado era tanta que, certa vez, tive que ficar na ponta dos pés porque não tinha espaço. Estive prestes a ligar para o MIT e solicitar um grupo de pesquisadores em Física para presenciar a incrível tentativa de quebrar as leis de Newton.

Aliás, por falar nisso, o princípio da inércia é o tempo todo testada durante uma curta viagem de topic, dado o uso indiscriminado e descuidado das marchas e dos freios. Foi em uma tentativa de manter minha velocidade constante que, ao segurar nas barras do teto, uma peça de ferro se soltou e caiu bem no meu ombro.

Não entendo porque o transporte coletivo da cidade não consegue ter um mínimo de qualidade. Além de os passageiros correrem todos os riscos possíveis, existe, na maioria dos motoristas e cobradores, uma idéia deturpada – me parece – de que eles fazem um favor aos passageiros ao transportá-los: não tem qualquer gentileza e, quando recebem alguma reclamação [e isso é muito frequente], são sempre grossos.

Além de passarem por fiscalização constante, o transporte coletivo e seus trabalhadores precisam ter algum tipo de capacitação, pois mostram total despreparo para conduzir veículos repletos de vidas e para tratar com o público.

Durante algum tempo, a Etufor andou fazendo esse trabalho de monitorar as topics, especialmente a lotação, mas parece que o órgão fechou os olhos. O transporte alternativo é importante, sim – oferece itinerários que os ônibus não têm -, mas precisa passar por uma grandissíssima mudança para ter qualidade.

PS. As dicas que constam na charadinha foram colhidas na penúltima viagem que fiz de topic, na noite retrasada.

Outubro 7, 2009

Fui eu não, má!

Terça-feira, oito da manhã. O repórter de polícia começa o dia com a “ronda” nas delegacias: liga para os principais distritos para saber como fora a madrugada. Em muitas, ouve do inspetor: “Está tudo tranquilo”. Liga também para as delegacias especializadas e fica sabendo que vai ser realizada às dez uma “apresentação de presos” capturados na noite anterior. Será a primeira notícia do dia e já vê até a manchete: “Presos acusados de roubar carga de arroz na BR-116″.

Quinze minutos antes do horário previsto, os repórteres começam a chegar – caras conhecidas do dia a dia nas portas das delegacias e nas cenas de crimes – muitos da TV, de programas policiais que se baseiam no “vem comigo” para gravar as matérias: aperta o botão REC e vai! O delegado titular recebe todos, presta informações sobre a operação que resultou na prisão dos homens e acena para dois inspetores. Falta a parte mais importante: ver os presos.

Os dois inspetores saem e logo chegam arrastando quatro homens, algemados em pares. Tão logo apontam na porta da sala, começa a euforia de câmeras fotográficas estalando os obturadores e de cinegrafistas buscando o melhor ângulo para mostrar a cara dos “bandidos”.

Esse é o clímax da matéria policial: explorar ao máximo a imagem dos acusados, que tentam [a maioria] de toda forma, esconder o rosto e evitar falar. Em vez de perguntas, muitos repórteres fazem provocações e acusações, pressionam até obter uma cena forte para mostrar aos telespectadores e para dar margem aos cometários dos apresentadores. O que seria do jornalismo policial, em especial dos programas de TV que exploram esse nicho, sem esse tipo de prática?

Muita coisa nessa área do jornalismo mudou – alguns jornais impressos, por exemplo, sequer editam mais a página de Polícia, mesclando as notícias policiais aos eventos do cotidiano, mostrando o fenômeno por trás do fato em vez do contrário. Por que tal “evolução” não chegou ainda aos programas policiais da TV?

Espero que os fatos recentes acerca da proibição da exposição dos presos provoque mudanças significativas no perfil desse tipo de jornalismo na TV.

Setembro 30, 2009

Fortaleza, te amo, te odeio

Penso Fortaleza como se fosse um namorado, um daqueles para quem a gente olha e se encanta, ama cada vez mais, quer bem. Mas, como em todo namoro, há as brigas, os momentos de raiva. Fico me perguntando: por que um namorado tão lindo como esse não pode ser bom e justo?

Por que Fortaleza não consegue melhorar? Por que os projetos estruturais não andam? Parece, assim, aqueles namoros com promessa de casamento: em 2010, em 2012… Não suporto mais esperar pelo Metrofor, pelo Transfor, pelo antigo projeto Costa Oeste.

Quisera pudesse passar alguns anos fora daqui, acabar o namoro com Fortaleza, me apaixonar por outra cidade, mas voltar um dia para revê-la. Mas sei que não posso acabar essa relação desse jeito.

Ora, Fortaleza precisa de outras namoradas como eu, pessoas que tenham amor e bem-querer por esse lugar. Por que é tão difícil amar essa cidade? Por que as pessoas não pensam duas vezes antes de jogar lixo no chão?

Como em toda relação, deve haver reciprocidade. E esse namorado chamado Fortaleza, para ser sincera, não vem cativando o carinho de suas namoradas…

Setembro 20, 2009

A Praça do Ferreira e eu

“Vamos passear na praça?” o convite que o Vida&Arte no domingo passado, 13, me  fez foi irresistível. Nas suas páginas, os relatos sobre diferentes praças da cidade me trouxeram de volta memórias do tempo em que eu, ainda estudante de Jornalismo e estagiária do jornal O POVO, cruzava três praças do Centro para chegar ao prédio da avenida Aguanambi.

De todas as praças do bairro, confesso que a minha preferia sempre foi a Praça do Ferreira – era a primeira do meu percurso até o jornal. De manhãzinha, poucas lojas estavam abertas. As pessoas que passavam por lá seguiam, como eu, para mais uma jornada de trabalho. Eu andava pela praça com uma cara de epifania – até descuidada, perigando tropeçar numa ou noutra pedra portuguesa solta. Indo no sentido da avenida Duque de Caxias, procurava olhar pra trás para ver o Hotel Excelsior e sonhar: ai, como eu queria morar ali… Como não podia deixar de ser, a Coluna da Hora me despertava para apressar o passo.

No fim do expediente, sempre dava um jeito de passar novamente pela Praça do Ferreira. Num desses retornos, encontrei o fotógrafo Jarbas Oliveira clicando o vai e vem do lugar. Noutro, o repórter do O POVO, Tiago Braga, me acompanhou no fascínio de ver, no final da tarde, a fonte da Coluna da Hora ligada, jogando gotinhas d’água no nosso rosto sempre que o vento vinha na nossa direção.

Tais quais os meus, os relatos dos repórteres que visitaram as diferentes praças do Centro são muito pessoais, cheias de lembranças. As praças, pelo jeito, têm o dom de marcar na gente esses momentos singelos. Espero que elas possam ser mais bem cuidadas e preservadas para que nossos pequenos cidadãos, ao chegarem à idade adulta, contem aqui histórias como estas.

Junho 29, 2008

A Amazônia bate na nossa cara

Ontem, conversei com minha amiga tawianesa Yi-Ting e mostrei-lhe as fotos que fiz durante minha viagem à Santarém, no Pará, onde tive a oportunidade de conhecer um pedaço da Amazônia. Ao ver a foto de uma imensa lavoura de soja prestes a ser colhida, eis que ela comenta: “tomara que a Amazônia possa ser preservada, porque eu quero vê-la um dia.”

Mais do que o desejo de poder conhecer a floresta durante uma viagem ao Brasil, Yi-Ting também deixa clara a consciência da preservação de um patrimônio ambiental que pertence a todos. Pude conhecer a Amazônia durante o Laboratório Ambiental para Estudantes de Jornalismo, realizado pela Fundação Konrad Adenauer entre os dias 22 e 25 de junho, que reuniu cerca de 20 estudantes do Norte e do Nordeste.

A Amazônia não deve estar somente nos nossos sonhos, mas no nosso pensamento a cada dia. Cada árvore da floresta evapora 300 litros de água por dia. A imensidão de verde da Amazônia, assim, contribui com mais de 20 bilhões de litros d’água, que vão nos refrescar e nos abastecer.

Há uma exploração indiscriminada dos recursos da floresta e também uma ausência de governança. Apenas 43% são áreas protegidas, validadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama). O restante pode estar sujeito a ação de grileiros, que a “loteia” como bem querem e a vendem para que as árvores e os animais dêem espaço a lavouras de soja – como a que mostrei a Yi-Ting – de arroz, à pasto para a criação de gado ou à exploração ilegal de madeira.

É importante entender que precisamos da Amazônia, seja para o equilíbrio do clima ou para o nosso sustento. No meio da floresta, há diversas comunidades que dependem dela para sobreviver. Pessoas como o Alciney Feitosa, que produz o couro ecológico a partir do látex retirado da seringueira, “uma vaca leitera bem boa”, e que têm consciência do mal que a exploração desregrada causa.

A Amazônia não é um problema que precisa ser resolvido. É, sim, solução para o futuro do mundo. É uma riqueza que devemos explorar bem para que, um dia, Yi-Ting e tantas outras pessoas possam vir lá do outro lado do mundo para conhecê-la.

Abril 12, 2008

Feliz aniversário

Amanhã, nossa urbe bandida Fortaleza terá 282 anos nos couros e soprará velinhas no bolo de areia do aterro da Praia de Iracema. Roberto Carlos é o convidado especial e deve reunir um milhão de amigos, desde os que estarão com o pé na areia até os atrepados nos prédios residenciais – em suas festas apartadas da do povão – e nos hotéis.

Luizianne Lins, desde que anunciou a vinda do rei para a festa da cidade, deve dormir sentindo dores desviadas, pontadas e quentura nas orelhas. Porque o que se fala dessa festa e do gasto com ela… São cerca de R$ 1,3 milhão investidos no show, considerados abusivos em uma capital que sofre nas áreas de risco e com a iminente epidemia de dengue.

Questões sociais e de saúde à parte, receber Roberto Carlos nas areias da Praia de Iracema será um afago na alma de tantos fãs que só viam o rei nos especiais de fim de ano da Globo e em aparições esporádicas na TV e só ouviam suas canções quando compravam um CD pirata em uma banquinha no Centro ou quando ligavam o rádio no domingo de manhã e escutavam o programa “As canções que você vez pra mim”, que o meu vizinho do quintal dos fundos sempre ouve.

Toda a cidade se mexe e se alegra. Faz contagem regressiva e acorda de manhã com uma canção na cabeça e na ponta da língua [não que eu seja toda fã, mas na quinta-feira acordei cantando 'Eu fiz daquela amor o meu sonho maior, minha razão de tudo...', trecho da música Palavras]. Como disse outro dia um motorista: é muito difícil encontrar alguém que não goste do rei. Tem desde aquele que é super fã e adora todas as músicas até quem só gosta de algumas.

Não dá para se preocupar e se martirizar o dia inteiro pelas mazelas da cidade nem agir como quem não toma coca-cola para não contribuir com a guerra do Iraque. Vamos lá curtir o show do Roberto Carlos!

Um aviso para a prefeita: não esqueça que depois da festa de arromba é preciso comprar o pão do café-da-manhã no dia seguinte.

Abril 6, 2008

Quebrando epifanias

Amo praças e já disse isso aqui. Todos os dias, a caminho do trabalho pela manhã, atravesso a Praça do Ferreira, a dos Voluntários e a Coração de Jesus. Para mim, praças são espaços ricos em cores – visíveis aos olhos e à alma.

É o lugar da cidade em que as ruas retas e de esquinas a noventa graus se abrem para um céu azul – ou nublado, como tem sido partes dos dias desta urbe bandida – quase sempre rodeado por elementos que chamam nosso olhos.

Na Praça do Ferreira, por exemplo, me deixo fascinar pela Coluna da Hora, que sempre me faz apertar o passo quando badala oito vezes na manhã.

Um dia, no fim da tarde, resolvi fazer o caminho contrário e parar na Praça do Ferreira. Era fim de tarde, o céu já começava a ficar lilás e havia um palco montado e uma banda regional tocando.

A fonte da Coluna da Hora estava funcionando e o vento norte soprava e trazia gotinhas de água para nossa cara. Comprei um sorvete no McDonalds – que no Centro só custa R$ 1 -, me sentei num banco e fiquei curtindo os jatos finos de água subindo e descendo.

A música embalava a dança da água da fonte e o andar de um fotógrafo loiro – estrangeiro, na certa – que procurava o melhor ângulo para fazer um detalhe da Coluna. Acompanhei quando ele deu uma volta de 180° na Praça, fez umas fotos de alguns ângulos próximos e desapareceu do nada entre as pessoas que passavam com suas sacolas.

Éramos meu sorvete e eu curtindo aquele típico fim de tarde em Fortaleza – só faltava o pão com café, ou o pastel com caldo de cana; mas a liseira só deu mesmo para a casquinha mista.

E só faltava também os vendedores de caneta e de marujinho. Me aparece um menino vendendo adesivo. Recusei e agradeci, como de costume. Mas o menino me fez uma cara de cachorro sentado em beira de calçada e persistiu:

- Ô, compra?

- Não, querido. Muito obrigada.

Pensei comigo: putz, nem se pode mais ter uma epifania sossegado… Mas aí o moleque botou o olho no meu sorvete.

- Me dá um pedaço? – pediu.

- Não, eu acabei de comprar.

- Como acabou de comprar se já tá terminando?

- Mas eu quero comer todo.

- Ôôô, me dááá.

- Não.

- Tu vai negar? Ooolha que quem nega hoje não tem amanhããã…

- Pede praquele homem alí comprar – disse eu, apontando para um senhor que estava sentado em outro ponto das praça tendo também sua epifania, olhando para a fonte da Coluna da Hora.

- Aquele??? Compra nada! Tu não vai me dar não?

- Não.

- Égua, má! Povo miserávi!

E saiu chutando as pedras portuguesas da praça, puto da vida.

Enfim, comi meu sorvete todo e nem deu dor de barriga.

Março 4, 2008

Além do feijão com arroz

Quais devem ser os limites entre o ser cidadão e o ser jornalista? Para mim, os mínimos possíveis. Quem vive na rua, conversando com o povo, precisa compreender daquilo sobre o que eles falam – e que, quando chegamos em casa, partilhamos, pois nós, jornalistas, também somos povo.

Passamos quatro anos da nossa vida tomando técnicas de codificação direto na veia e lendo sobre os mais diversos assuntos – às vezes sem tempo para refletir o suficiente sobre eles. Daí, chegamos nas redações e aplicamos aquilo que aprendemos: tentamos ser pouco parciais, ouvir os dois lados, jogar tudo e aplicar a técnica e, puf, sai mais um texto jornalístico.

A rotina do dia-a-dia de convívio com a codificação é capaz de nos  sufocar e matar aquele ser que quer se indignar e questionar de forma apaixonada. Ele deve existir, mesmo que em pequena medida, para que nunca aceitemos como satisfatória qualquer resposta, para que possamos sentir um pouco daquilo que o público sente e perguntar aquilo que eles perguntariam se estivessem em nosso lugar.