Ventos que trazem más notícias

Era uma comecinho de tarde de quarta-feira quando o acaso me levou à Praça da Bandeira. Eu nem tinha almoçado ainda e me aguentava em pé graças a uma barrinha de cereal. Precisava cumprir minha tarefa de repórter, assim como outros que já estavam lá quando cheguei. Todos aguardavam um helicótero que, dentro em breve, rasgaria o céu limpo e pousaria no meio da praça. Todos: eu, outros repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, curiosos [alguns até sem saber o que iria acontecer], policiais, socorristas.
O barulho das hélices surgiu repentinamente e a aeronave voava baixo. Foi pousando no meio da praça e provocando uma ventania que espalhou areia e folhas sobre as pessoas. O socorristas correram com a maca até lá, os cinegrafistas e os fotógrafos foram atrás; o povo seguiu o exemplo.

Eu e os demais repórteres ficamos afastados, esperando. Cheguei um pouquinho mais perto, indignada com a falta de consciência das pessoas. Havia até uma mulher gravando com uma câmera de celular! “Gente, vamos afastar! A vítima tem que respirar!”, gritou um senhor lá da borda da calçada. Uma mãe pegou sua filhinha pelo braço e a levou embora. “Você não pode ver essas coisas não. Ela é uma bebezinha igual a você”, disse a senhora.

Pouco tempo depois, os socorristas corriam com a maca pela praça em direção a uma das ambulâncias. O vento soprava e emaranhava os meus cabelos, mas os dela, uma criaturinha de apenas 10 anos, estavam estáticos sobre a esteira branca. A face morena sob o sol, apesar da testa inchada, parecia dar-lhe vida – algo que parecia querer abandoná-la. A mim, tudo soava onírico.

A ambulância seguiu para o Instituto Dr. José Frota [IJF] e nós, repórteres, corremos pelas calçadas até chegar lá – eu já desperta do que achava ser sonho. Na porta da emergência, ainda presenciamos outras crianças chegarem em ambulâncias vindas dovizinho município de Beberibe, com bracinhos e perninhas machucados pelas telhas e madeiras que caíram sobre eles poucas horas antes na escola em que estudam.

O chefe de equipe da emergência, Mardônio Salmito, disse ter esperanças da recuperação da menina que viera pelos céus. “As crianças sempre respondem melhor”. Hoje à tarde, as palavras de outro chefe de equipe, Gersivam Gomes, foram diferentes. “Grave, grave e grave”, disse ele a respeito do estado de saúde da menina.

Aos que têm fé, reza. E talvez o nome Francisca venha daí. Algumas mães batizam seus filhos com esse nome quando eles nascem com alguma doença e se curam. A esperança é de que a promessa feita há 10 anos possa se renovar agora e faça Francisca voltar a brincar.

Nessa tarde, mulheres cantavam na capela do IJF e suas vozes ecoavam pela entrada do hospital. Alí encostada no corrimão, aguardando o carro que me levaria de volta à redação, eu escondi o crachá sob os braços cruzados e chorei.

Leia as matérias que saíram nos jornais O Povo e Diário do Nordeste

Um lindo palhaço…

Orlângelo LealEm plena tarde primaveril – embora o sol de verão estivesse truando lá fora -, um palhaço brincava entre violinos e violoncelos. Meigo, gentil, engraçado. Era Orlângelo Leal – ou melhor, Bitovin [referência a Beethoven] escrito do jeito cearense mesmo, como ele explicou -, todo colorido, vestido e pintado à caráter no concerto didático da Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho da Semana da Criança. A apresentação, realizada no Theatro José de Alencar (TJA), também comemorava o selo e o carimbo comemorativos dos Correios aos dez anos da orquestra.

Rodopiando, saltando e cantando, Bitovin trazia a platéia, formada por crianças e adolescentes, para junto dos músicos. Falando em cearês puro e simples, fazia aquela cambada de minino dar altas gargalhadas. Ajudando os que subiam para arriscar uns acordes nos instrumentos, deixava-os seguros de que não precisavam harmonizar nenhuma nota: o importante alí era a experiência com os músicos e os instrumentos.Bitovin – ou será Orlângelo Leal? – é um minino feliz, uma criança linda que gosta de fazer novos amigos – só naquela tarde, foram mais de 300. “A idéia é criar um formato de ouvir música erudita de forma lúdica. O concerto abre oportunidade para que as crianças conheçam elementos da música que não estão na mídia”, disse nos bastidores do palco do TJA. O músico e ator compõe a banda Dona Zefinha.

Curiosidade

Dependendo do número de músicos e do volume do som, a orquestra recebe sua classificação. É o que explica o regente da Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho, Márcio Landi. Uma sinfônica, por exemplo, necessita de um grande volume de som. Já a de câmara, nem tanto. O nome, aliás, deriva do italiano e significa quarto ou aposento. Ou seja, a orquestra de câmara é apropriada para tocar em ambientes pequenos. Formada basicamente por instrumentos de corda, a orquestra de câmara remonta ao período barroco [século XVII]. Sua sonoridade, conforme o regente, é mais intimista.

Deus os abençõe…

Aniversário do presidente da AL, Domingos FilhoAntes mesmo de 9 horas, o plenário da Assembleia Legislativa estava lotado. Bom para o povo ter seus representante reunidos naquele espaço de onde devem sair decisões importantes… até se descobrir o real motivo: a comemoração do aniversário do presidente da Casa, Domingos Filho. O homi era só sorrisos, todo lisonjeado. Afinal, tinha bolo, o padre rezara a missa dentro do plenário diante do crucifixo gigante pregado na parede e todo o ritual estava sendo transmitido em TV aberta. Cerca de uma hora de programação importantíssima para os brios do deputado e inútil para os três milhões de fortalezenses. Como bem ponderou o jornalista Daniel Sampaio, do O Povo, já pensou se todos os deputados resolverem querer uma festa desse naipe? Pelo menos é um motivo para fazer com que a maioria deles fique no plenário.

Em tempo: já reparararan que a TV Assembléia só usa plano fechado em suas transmissões da sessão? É justamente porque o plenário fica tão vazio que a voz de quem se pronuncia – mesmo usando microfone – chega faz eco. Ontem, depois da festinha, ficaram uns cinco gatos pingados – e mesmo assim, conversando com outros, atendendo o celular…

Minino réi arengueiro

Para completar o dia feliz, ainda teve discussão entre dois deputados. Carlomano Marques (PMDB) e Augustinho Moreira (PV) quase se pegam por causa de um mal entendido – quiçá por causa de besteira. O peemedebista se pronunciava a respeito de uma matéria publicada no Diário do Nordeste que repercutia a declaração do presidente da Câmara dos Vereadores, Tin Gomes, de que a AL discutia mais os problemas de Fortaleza que os do Ceará como um todo e que isso visava atacar à prefeita Luizianne Lins.

No fim desse pronunciamento, chegou Augustinho Moreira, que, mesmo pegando a história pela metade, não titubeou em botar a boca no microfone para dizer que o colega estava usando o tempo da tribuna para atacar Tin Gomes. “Vossa Excelência não sabe ler não?”, indagou o outro. Isso feriu profundamente os brios do deputado do PV. “Vossa Excelência está me atacando me chamado de analfabeto! Eu não aceito esse tipo de provocação!”, esbravejou, como o dedo em riste. “Não aponte o dedo pra mim não! Se enxerga, rapaz!” Os ânimos ficaram tão exaltados que assessores tiveram de levar Augustinho Moreira para fora do plenário. Minutos depois, correria para ver o que acontecia no corredor. Segundo um assessor da AL, o deputado do PV passou por Carlomano Marques soltando piada quando um dos assessores deste deu um empurrão naquele.

“Ele poderia ter perguntado se eu não tinha lido a matéria, mas não se eu sabia ler”, lamentou Augustinho Moreira depois, com os ódios mais abrandados. Domingos Filho ficou de chamar os dois para a conversa e dar-lhes um bolo de palmatória em cada mão.

* foto retirada do site da Assembléia Legislativa

Imposição

Essa semana, minha televisão deu problema: não aumenta nem diminui o volume e não muda de canal. Fica o tempo todo na Globo. A estúpida máquina me obriga a assitir o que ela quer! Já apertei que afundei o botão, mas ele é implacável: só quer ficar na Globo. Pareceu-me estranhamente coincidente isso acontecer no período de renovação das concessões e num momento em que a emissora perde pontos de audiência.
A situação que pra mim é obrigatória, é uma das poucas opções das cerca de 30 famílias que moram no meu quarteirão e de milhares da minha cidade. Se eu tivesse de ir na budega comprar uma coisa e não quisesse perder o capítulo da novela, era só apurar o ouvido ao passar na frente de cada uma das casas e ouvir de pedaço em pedaço o diálogotelevisao.jpg dos personagens.

Mas de uns anos pra cá, as coisas mudaram. Eu passo na rua e ouço – quando não vejo, já que alguns moradores gostam de pôr a televisão na calçada – os mais diversos sons, não mais a orquestra afinada da novela das oito. Filmes, shows… tem gente desistindo de assistir à Globo – e aos outros canais também. Não se percebe que o telespectador mudou, mas as emissoras continuam fazendo a mesma coisa todos os anos: a menina bonitinha da escola moderninha sempre fala as mesmas coisas; o vilão de olhar brilhante também.

Como já sei a história toda de cor – e parece que outras pessoas também -, prefiro desligar o diabo da TV, estranhar o silêncio da casa e ouvir a zuada dos meninos que brincam no meio da rua.