Feliz aniversário

Amanhã, nossa urbe bandida Fortaleza terá 282 anos nos couros e soprará velinhas no bolo de areia do aterro da Praia de Iracema. Roberto Carlos é o convidado especial e deve reunir um milhão de amigos, desde os que estarão com o pé na areia até os atrepados nos prédios residenciais – em suas festas apartadas da do povão – e nos hotéis.

Luizianne Lins, desde que anunciou a vinda do rei para a festa da cidade, deve dormir sentindo dores desviadas, pontadas e quentura nas orelhas. Porque o que se fala dessa festa e do gasto com ela… São cerca de R$ 1,3 milhão investidos no show, considerados abusivos em uma capital que sofre nas áreas de risco e com a iminente epidemia de dengue.

Questões sociais e de saúde à parte, receber Roberto Carlos nas areias da Praia de Iracema será um afago na alma de tantos fãs que só viam o rei nos especiais de fim de ano da Globo e em aparições esporádicas na TV e só ouviam suas canções quando compravam um CD pirata em uma banquinha no Centro ou quando ligavam o rádio no domingo de manhã e escutavam o programa “As canções que você vez pra mim”, que o meu vizinho do quintal dos fundos sempre ouve.

Toda a cidade se mexe e se alegra. Faz contagem regressiva e acorda de manhã com uma canção na cabeça e na ponta da língua [não que eu seja toda fã, mas na quinta-feira acordei cantando ‘Eu fiz daquela amor o meu sonho maior, minha razão de tudo…’, trecho da música Palavras]. Como disse outro dia um motorista: é muito difícil encontrar alguém que não goste do rei. Tem desde aquele que é super fã e adora todas as músicas até quem só gosta de algumas.

Não dá para se preocupar e se martirizar o dia inteiro pelas mazelas da cidade nem agir como quem não toma coca-cola para não contribuir com a guerra do Iraque. Vamos lá curtir o show do Roberto Carlos!

Um aviso para a prefeita: não esqueça que depois da festa de arromba é preciso comprar o pão do café-da-manhã no dia seguinte.

Quebrando epifanias

Amo praças e já disse isso aqui. Todos os dias, a caminho do trabalho pela manhã, atravesso a Praça do Ferreira, a dos Voluntários e a Coração de Jesus. Para mim, praças são espaços ricos em cores – visíveis aos olhos e à alma.

É o lugar da cidade em que as ruas retas e de esquinas a noventa graus se abrem para um céu azul – ou nublado, como tem sido partes dos dias desta urbe bandida – quase sempre rodeado por elementos que chamam nosso olhos.

Na Praça do Ferreira, por exemplo, me deixo fascinar pela Coluna da Hora, que sempre me faz apertar o passo quando badala oito vezes na manhã.

Um dia, no fim da tarde, resolvi fazer o caminho contrário e parar na Praça do Ferreira. Era fim de tarde, o céu já começava a ficar lilás e havia um palco montado e uma banda regional tocando.

A fonte da Coluna da Hora estava funcionando e o vento norte soprava e trazia gotinhas de água para nossa cara. Comprei um sorvete no McDonalds – que no Centro só custa R$ 1 -, me sentei num banco e fiquei curtindo os jatos finos de água subindo e descendo.

A música embalava a dança da água da fonte e o andar de um fotógrafo loiro – estrangeiro, na certa – que procurava o melhor ângulo para fazer um detalhe da Coluna. Acompanhei quando ele deu uma volta de 180° na Praça, fez umas fotos de alguns ângulos próximos e desapareceu do nada entre as pessoas que passavam com suas sacolas.

Éramos meu sorvete e eu curtindo aquele típico fim de tarde em Fortaleza – só faltava o pão com café, ou o pastel com caldo de cana; mas a liseira só deu mesmo para a casquinha mista.

E só faltava também os vendedores de caneta e de marujinho. Me aparece um menino vendendo adesivo. Recusei e agradeci, como de costume. Mas o menino me fez uma cara de cachorro sentado em beira de calçada e persistiu:

– Ô, compra?

– Não, querido. Muito obrigada.

Pensei comigo: putz, nem se pode mais ter uma epifania sossegado… Mas aí o moleque botou o olho no meu sorvete.

– Me dá um pedaço? – pediu.

– Não, eu acabei de comprar.

– Como acabou de comprar se já tá terminando?

– Mas eu quero comer todo.

– Ôôô, me dááá.

– Não.

– Tu vai negar? Ooolha que quem nega hoje não tem amanhããã…

– Pede praquele homem alí comprar – disse eu, apontando para um senhor que estava sentado em outro ponto das praça tendo também sua epifania, olhando para a fonte da Coluna da Hora.

– Aquele??? Compra nada! Tu não vai me dar não?

– Não.

– Égua, má! Povo miserávi!

E saiu chutando as pedras portuguesas da praça, puto da vida.

Enfim, comi meu sorvete todo e nem deu dor de barriga.