Embrutecer em Fortaleza

Este parece não ser um processo nem muito difícil nem muito longo quando se vive em Fortaleza.

Aprendi, quando criança, que se deve sempre cumprimentar as pessoas com bons dias, boas tardes e boas noites. E assim o faço até hoje. Deveria ser uma coisa de praxe, mas parece que não é. Nunca pensei que veria uma pessoa se surpreender ao receber um simples olá. Aconteceu na última sexta em um supermercado. Cheguei para pagar as compras e disse olá para a caixa.

– Já sou tão acostumada a não ser cumprimentada que nem falo mais nada. Quando cumprimentava um cliente, ele não respondia – desabafou a moça.

Por conta dessa indiferença das pessoas umas com as outras, presenciamos esses processos de embrutecimento. Vai ver até o motorista e o cobrador das topics lidam com a indiferença dos outros e, por isso, são grossos daquele jeito que contei no último post. Vai ver aconteceu a mesma coisa com o cobrador de um ônibus que peguei hoje, que duvidou que eu tivesse pago a passagem mediante crédito inserido na carteira de estudante e me chamou de arrogante por eu ter-lhe dito que ele é quem teria de ter visto no GET [a máquina que lê o cartão] o desconto da passagem.

Não deveria ser assim, mas é incrível como o ato de  cumprimentar é capaz de mudar as feições de uma pessoa nessa cidade, especialmente daquelas que estão ali prestando um serviço tão rápido – no caso dos caixas de supermercado. Tenho um amigo que, além de provocar essa mudança no semblante desses profissionais, ainda provoca risos neles. Estou certa que isso contribui – e muito- para que o dia deles fique mais feliz.

Às vezes, me parece que os cidadãos dessa cidade procuram cada vez mais se isolar – e esse isolamento começa justamente nessa ausência de diálogo, na ausência de um simples olá. E o mais triste é que esse tipo de comportamento não requer nenhum esforço – é somente um reflexo de educação.

Não entendo o que se passa na cabeça das pessoas que agem assim. Daqui a algumas décadas, se as coisas continuarem nesse rumo, perderemos nosso cartaz de povo simpático e receptivo.

Sem emoção, motorista

Aí vai uma charadinha: qual motorista é capaz de ser indelicado, não ter qualquer gentileza no trânsito, correr a mais de 60 km/h, passar a marcha e frear bruscamente e quase causar dois acidentes – tudo ao mesmo tempo? Quem usa o transporte alternativo de Fortaleza, certamente, soube a resposta já nas primeiras três pistas.

Utilizo [ou seria melhor dizer sofro?] na Topic 54 desde 2004, quando fazia cursinho no Benfica. As aulas terminavam por volta das 22h30min e, àquela hora, passava a última topic da noite. A lotação era inevitavel.

Mas pior do que isso era ficar ouvindo do cobrador: “Pessoal, por gentileza, vamos afastar aí pra trás, que tem espaço”. A concentração de gente por metro quadrado era tanta que, certa vez, tive que ficar na ponta dos pés porque não tinha espaço. Estive prestes a ligar para o MIT e solicitar um grupo de pesquisadores em Física para presenciar a incrível tentativa de quebrar as leis de Newton.

Aliás, por falar nisso, o princípio da inércia é o tempo todo testada durante uma curta viagem de topic, dado o uso indiscriminado e descuidado das marchas e dos freios. Foi em uma tentativa de manter minha velocidade constante que, ao segurar nas barras do teto, uma peça de ferro se soltou e caiu bem no meu ombro.

Não entendo porque o transporte coletivo da cidade não consegue ter um mínimo de qualidade. Além de os passageiros correrem todos os riscos possíveis, existe, na maioria dos motoristas e cobradores, uma idéia deturpada – me parece – de que eles fazem um favor aos passageiros ao transportá-los: não tem qualquer gentileza e, quando recebem alguma reclamação [e isso é muito frequente], são sempre grossos.

Além de passarem por fiscalização constante, o transporte coletivo e seus trabalhadores precisam ter algum tipo de capacitação, pois mostram total despreparo para conduzir veículos repletos de vidas e para tratar com o público.

Durante algum tempo, a Etufor andou fazendo esse trabalho de monitorar as topics, especialmente a lotação, mas parece que o órgão fechou os olhos. O transporte alternativo é importante, sim – oferece itinerários que os ônibus não têm -, mas precisa passar por uma grandissíssima mudança para ter qualidade.

PS. As dicas que constam na charadinha foram colhidas na penúltima viagem que fiz de topic, na noite retrasada.

Fui eu não, má!

Terça-feira, oito da manhã. O repórter de polícia começa o dia com a “ronda” nas delegacias: liga para os principais distritos para saber como fora a madrugada. Em muitas, ouve do inspetor: “Está tudo tranquilo”. Liga também para as delegacias especializadas e fica sabendo que vai ser realizada às dez uma “apresentação de presos” capturados na noite anterior. Será a primeira notícia do dia e já vê até a manchete: “Presos acusados de roubar carga de arroz na BR-116”.

Quinze minutos antes do horário previsto, os repórteres começam a chegar – caras conhecidas do dia a dia nas portas das delegacias e nas cenas de crimes – muitos da TV, de programas policiais que se baseiam no “vem comigo” para gravar as matérias: aperta o botão REC e vai! O delegado titular recebe todos, presta informações sobre a operação que resultou na prisão dos homens e acena para dois inspetores. Falta a parte mais importante: ver os presos.

Os dois inspetores saem e logo chegam arrastando quatro homens, algemados em pares. Tão logo apontam na porta da sala, começa a euforia de câmeras fotográficas estalando os obturadores e de cinegrafistas buscando o melhor ângulo para mostrar a cara dos “bandidos”.

Esse é o clímax da matéria policial: explorar ao máximo a imagem dos acusados, que tentam [a maioria] de toda forma, esconder o rosto e evitar falar. Em vez de perguntas, muitos repórteres fazem provocações e acusações, pressionam até obter uma cena forte para mostrar aos telespectadores e para dar margem aos cometários dos apresentadores. O que seria do jornalismo policial, em especial dos programas de TV que exploram esse nicho, sem esse tipo de prática?

Muita coisa nessa área do jornalismo mudou – alguns jornais impressos, por exemplo, sequer editam mais a página de Polícia, mesclando as notícias policiais aos eventos do cotidiano, mostrando o fenômeno por trás do fato em vez do contrário. Por que tal “evolução” não chegou ainda aos programas policiais da TV?

Espero que os fatos recentes acerca da proibição da exposição dos presos provoque mudanças significativas no perfil desse tipo de jornalismo na TV.