A caneta e o papel

Tenho internet ilimitada à minha disposição todo os dias. Tenho os endereços de email de amigos que não moram na cidade, não moram no Estado, não moram no País. Mantenho contato com eles pelo Orkut, pelo MSN e pelo Facebook. Ainda assim, nada tira de mim a satisfação de sentar na mesa da cozinha e ficar rodeada de papéis, envelopes, cartões e recortes coloridos.

Escrever cartas é uma das coisas que mais gosto de fazer – está no mesmo nível de ler e ouvir música. Uma vez, expliquei para um amigo que mora no Interior porque preferia as missivas ao email: nada substitui o sentimento expresso somente na caligrafia, pelas letras cuidadosamente desenhadas sobre o papel.

Embora enviar email seja mais prático e rápido, o ato [faça você essa reflexão] está sempre associado a outras atividades no computador – à pesquisa do Google, à leitura de emails e dos  posts do Twitter… Já escrever cartas é um ato único e prioritário: tudo à nossa volta, desde a escolha do papel no qual escrever até a confecção do envelope [outra coisa muito legal em escrever cartas é deixar a criatividade fluir e inventar envelopes diferentes] é dedicado exclusivamente a essa atividade.

Além do prazer em si, escrever cartas traz ainda outro “benefício”: mantém a caligrafia. Já ouvi várias pessoas relatando que suas letras se descaracterizaram após anos de uso intenso do teclado do computador. A máquina nos desacostuma ao papel e à caneta! Na faculdade, ouvi o engraçado relato de uma amiga que, frente a um trabalho que deveria ser entregue escrito à mão, primeiro digitou e depois, consultando a tela, copiou o que tinha escrito no Word para a folha de papel.

Confesso que tenho muita aproximação com o computador, mas procuro sempre alimentar a prática da escrita de cartas para me desligar um pouco do mundo e focar a atenção em só uma janela: aquela que me remete para o pensamento e para as expectativas dos amigos ansiosos por receber um envelope selado e carimbado.