Dias sem carro

Não comemoro o Dia Mundial sem Carro. Afinal, todos os meus dias SÃO sem carro. Sou usuária do transporte público de Fortaleza. Confesso que não por opção, mas por falta de. Se pudesse, certamente, teria um carro. A cidade cresceu, a demanda por transporte cresceu. No entanto, a infraestrutura necessária para dar conta disso tudo não cresceu junto.

Quando se pensa em fazer algo no Dia Mundial sem Carro, a maioria das pessoas pensa em usar a bicicleta em substituição ao automóvel. Eu, particularmente, não vi ninguém fazer qualquer reflexão sobre o transporte público. A bicicleta precisa ser, sim, um nicho importante da política de transporte, mas os ônibus, trens e metrô precisam ser igualmente incentivados.

O Dia Mundial sem Carro poderia ter sido uma ótima oportunidade para debater esses modais. Ao dar mais qualidade a eles, certamente o uso do carro particular seria colocado em segundo plano. Em uma cidade bem comunicada, com transporte público dando acesso a diferentes pontos da cidade e, especialmente, com rapidez e pontualidade, as pessoas pensariam duas vezes em comprar um carro.

Quando tenho que pegar um ônibus ou topic, preciso sair com uma hora de antecedência para chegar a tempo a meu destino. E com a possibilidade de congestionamentos, que têm sido cada vez mais constantes a qualquer hora do dia, a perda de tempo no deslocamento é maior.

No que se refere a rapidez, o metrô é um veículo incrível. Mas é triste saber que uma cidade espera há 12 anos pela conclusão das obras que trarão essa nova forma de deslocamento. Em uma cidade grande, onde a rapidez dos fatos e das informações imperam, as pessoas ainda se deslocam lentamente…

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O dia em que o Theatro José de Alencar fechou as portas

A frase do título é literal. Numa quinta-feira à noite, na frente de dezenas de pessoas que se sentiam frustradas por não ter conseguido entrar no Theatro José de Alencar, um funcionário move as duas bandas da porta e as fecha. O gesto, para mim, tomou um significado superdimensionado: me senti desprestigiada no mais importante teatro do Ceará, que sempre me recebeu tão bem. Além de mim, outra pessoa se sentiu assim e ficou magoada, chamando, inclusive, o tal funcionário de mal educado.

Tudo isso aconteceu na noite do concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Apresentação única no Ceará. Eram cerca de 20h10 quando cheguei e já encontrei as sempre receptivas portas do teatro fechadas. Uma multidão de gente indignada lotou a calçada e insistia com os funcionários do teatro, por entre as fendas dos portões laterais, de que poderia haver uma forma de assistir a apresentação.

Imediatamente, me veio à memória as cazuelas do teatro Colón, em Buenos Aires, espaços cretinamente estreitos atrás das cadeiras superiores de onde se pode assistir aos espetáculos de pé. Quem tem as pernas curtas ou tremendamente flexíveis pode tentar sentar… Nessa noite no Theatro José de Alencar, as cazuelas cairiam bem.

Custo a entender como os 780 assentos foram tão prontamente ocupados. Não quero dizer que se trate de um evento pouco interessante – muito pelo contrário! E a quantidade de gente que ficou do lado de fora prova isso -, mas eu e todos que estavam lá, encarando as portas fechadas, não imaginavam que a lotação seria tão rápida. Além disso, parece-me que havia uma certa “lista de convidados”: um senhor chegou para uma das funcionárias, também falando com ela entre as fendas dos portões, apresentou-se e ela conferiu se ele estava com fulano de tal. Em uma apresentação gratuita, haver uma lista de convidados é, no mínimo, uma desigualdade e, até mesmo, um desrespeito para com os demais (para não dizer uma sacanagem), uma vez que a lógica seria que os assentos fossem ocupados por ordem de chegada.

Não diria que a lição dessa noite seja “chegue mais cedo da próxima vez”. Acho que a forma de entrada para espetáculos desse gabarito deve ser repensada pela direção do teatro. Poderia haver, por exemplo, a distribuição de ingressos, o que evitaria a chateação de muitos por dar viagem perdida e ainda perder apresentações raras como essa.

PS. O rapaz que chamou o funcionário de mal educado conseguiu entrar – sabe-se lá como…

Turismo em Fortaleza

Estive recentemente em Buenos Aires e minha experiência de turista na cidade portenha me fez refletir sobre o turismo de nossa capital Fortaleza. Um fato em especial colocou mais lenha na fogueira de minhas ponderações. Encontrei na rua um casal de cariocas e eles comentaram já terem visitado Fortaleza. No entanto, suas referências aos locais onde estiveram nada tinham a ver com a cidade. Somente listaram praias do Ceará – nenhuma de Fortaleza. E mesmo que tivessem falado na Praia do Futuro e na Praia de Iracema, por exemplo, eu ainda não estaria satisfeita com o modelo de turismo que se faz aqui.

Quando se fala em turismo nas grandes capitais do País, sempre existe vários apelos para os espaços urbanos, para a arquitetura, para a história. Em Fortaleza, isso é muito escasso, embora tenhamos locais interessantíssimos do ponto de vista arquitetônico – como o Teatro José de Alencar e a Praça do Ferreira – e histórico, como o Forte de Nossa Senhora da Assunção e o Marco Zero, na Barra do Ceará.

O apelo para as belezas naturais – e aqui não estou demerecendo elas do ponto de vista turístico, pois este nicho é bastante forte – está inclusive nos souvenirs. Ao procurar uma camiseta para dar de presente a um amigo argentino, a maioria das estampas se referiam às praias e ao sol. Com bastante insistência, encontrei uma com os desenhos da Coluna da Hora, da estátua de Iracema, do Theatro José de Alencar e do Marco Zero.

É preciso promover e valorizar estes aspectos da nossa história não só para os turistas que visitam Fortaleza como para os habitantes; estimular, realizar e ampliar visitas aos espaços da cidade para que os visitantes saiam daqui conhecendo mais a respeito da formação de nossa cidade e de sua população. Dessa forma, as fotos dos turistas estamparão muito mais que areia e mar.