Periferia

A despeito dos condomínios de apartamentos, dos vidros dos carros fechados e das ruas desertas, ela continua totalmente desinibida: a periferia. Pulsa freneticamente, tendo as ruas como veias e o povo como sangue.

O fluxo é deveras intenso. Praticamente em toda porta há alguém na calçada e, recentemente, algumas pessoas passaram a cozinhar comidas regionais e montar uma pequena estrutura na frente de casa para vender pratinhos. Numa esquina, uma churrascaria. Noutra rua, uma lanchonete. E dá-lhe gente batendo perna!

Há quem tema a periferia. Algumas são locais que despontam nas estatísticas da violência noticiada nos programas policiais da TV, mas sua população não só sobrevive como vive – e bem, obrigada: a maioria tem seus empregos, suas formas de lazer, conseguem reformar a casa, comprar um carrinho…

Gostaria que a periferia nunca pudesse ser tomada pelo acesso de isolamento com a rua proporcionado pelos condomínios e que continuasse a tê-la como a extensão da casa. A meninada que o diga: não faltam os rachas, os jogos com bilas e até as arraias (o terror dos fios de telefone e de energia!). E também o devem dizer o pessoal adepto a uma festinha, que armam a churrasqueira na calçada, arrumam cadeiras e mesas e ligam o som (alto, diga-se, porque nada é perfeito…).

Em suma, torço para que a periferia nunca deixe de ser periferia, que as pessoas nunca se desapeguem da rua e que continuem nesse vai-e-vem que dá tanta vida a esse setor especial da cidade.

Seu Fortunato

Por volta das oito da manhã, eis que ele aparece na parada do ônibus. Carrega consigo uma porção de garrafas térmicas daquelas grandes e uma caixa térmica. Já é um senhor de idade um tanto avançada, mas ainda paga passagem e, por isso, sobe com todas as suas coisas pela porta de trás. Basta passar a catraca para que ele comece a falar.

Seu Fortunato prega a palavra de Deus. E fala, às vezes, durante todo o percurso que vai de seu embarque até o terminal do Papicu. As lições que estão na Bíblia são exemplificadas muitas vezes por experiências de sua própria vida e de seu cotidiano. Dia desses, tornei-me um desses exemplos: seu Fortunato citou minha atitude de dar-lhe a vez na subida do ônibus como bom exemplo de jovens que respeitam os idosos.

Descobri que ele mora nas proximidades do meu bairro, pois de quando em vez o vejo passando pelas ruas – sempre sozinho. Dizem que ele tem filhos e posses suficientes para que não fosse necessário sair durante as manhãs para vender lanche. Outro dia, estava na rua da minha casa em um desses cultos que os evangélicos promovem em suas casas. Não falava. Cantava.

Nas vezes em que ouvi seus relatos e suas citações da Bíblia, nunca vi ninguém intervir no seu discurso. Mas acho que ele mesmo não espera isso das pessoas. O simples fato de espalhar uma mensagem bíblica, de afeto, de amor, de justiça e esperança – tão inerentes à história de Jesus – já deve lhe bastar. Alguma centelha deve ficar nelas.