Dia das Crianças

São oito da manhã e os adultos se apressam para pegar o ônibus e chegarem a seus empregos. Aguardam na parada pela linha que os levarão a seus locais de trabalho. O veículo assoma a alguns metros. Posicionamo-nos para, rápidos, sinalizarmos, subirmos e irmos embora.

Eis que, do outro lado da avenida, ouvem-se vozes de criança. Falam umas com as outras, gritam umas com as outras. São, pelo menos, umas dez. Vestem roupas surradas, portam varetas adornadas com borracha nas pontas que servem de malabares.

Os rostos são de quem acordou e não tomou banho, acordou e não tomou café, acordou e não tinha a mãe nem o pai para cuidar deles. Suas presenças na parada de ônibus da Leste-Oeste, esquina com avenida Pasteur, são bem frequentes. Perturbam os adultos apressados, pois quando veem o ônibus que segue até a Praia de Iracema, lançam-se à porta numa pressa e num desespero capaz de derrubar qualquer marmanjo.

Alguns cobradores já se condicionaram à presença dessas crianças. Uns deixam-nas subir e seguir viagem (a maioria é tão pequena que não tem nem idade para pagar passagem), outros gritam, mandando-as descer do veículo.

Na manhã de ontem, todas seguiram viagem. Quem pôde passar por baixo da catraca, passou; quem não pôde e, portanto, teria de pagar passagem, foi ameaçada pelo cobrador para que descesse bem antes do destino. Os gritos uns com os outros seguiram durante todo o percurso. Os demais passageiros se mostravam curiosos, olhavam para trás com frequência.

Na Praia de Iracema, todas as crianças desceram, mas seus gritos de protesto contra o cobrador ameaçador perduraram até que o ônibus se distanciasse. Passageiros ensaiaram um debate entre si. Um apostou que as mães estavam se prostituindo, outros reivindicaram a presença forte do governo na vida delas, outra se vangloriou por ter oito filhos, mas nenhum na situação dos pequenos que estavam no ônibus havia pouco.

No final das contas, sobrou uma pergunta: de quem é a responsabilidade? Não seria numa curta viagem de ônibus que iríamos respondê-la, pois a questão inclui muitas outras. Encerrando o debate, só restou a eles concluir, de forma irônica e sarcástica: esse é o futuro do Brasil.

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