Fortaleza em cartaz nos cinemas

A Praia do Mucuripe, a avenida Heráclito Graça, a Ponte dos Ingleses e outras paisagens de Fortaleza estão no filme Assalto ao Banco Central, que está atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. A película, dirigida por Marcos Paulo, baseia-se no crime que deu um prejuízo de mais de R$ 160 milhões ao Banco Central da capital alencarina. Com grande perícia, a quadrilha responsável pelo crime construiu um túnel que levava ao cofre do banco e o montante roubado era inteiro composto de notas velhas de R$ 50. Embora a maioria das cenas tenham sido gravadas no Rio de Janeiro, as imagens de Fortaleza estão bastante destacadas no filme.

A respeito da narrativa, o diretor estreante, na minha opinião, não obteve muito sucesso, especialmente em requisitos como trilha sonora, fotografia e montagem. Não compreendo muito sobre o processo de produção cinematográfica, mas as falhas nos itens acima, para mim, ficaram patentes. Os recursos de flashback nas cenas alternadas entre a presença da Polícia Federal e da quadrilha na casa que era o QG dos assaltantes não ficaram bem feitas e as músicas de fundo que representavam drama era por demais exageradas.

Dentre  as atuações, destacaria somente a de Milhen Cortaz, que tem uma cara de mal extremamente verossímel, e de Vinícius de Oliveira, que faz um evangélico sensível e afeminado. Para mim, a forma de atuar em filmes e em novelas é bastante distinta; os demais atores parecem estar protagonizando personagens de uma novela. Lima Duarte, no papel de um delegado da Polícia Federal, demonstrava insegurança e Hermila Guedes errou a mão ao compor a personagem Carla, que ficou muito caricatural (vide sua boca aberta mastigando chiclete).

Na mão de um José Padilha da vida, penso que Assalto ao Banco Central teria sido uma grande obra cinematográfica.

Fonte da imagem: http://www.cinepop.com.br/filmes/assaltobancocentral.php

Fortaleza de bicicleta

O número de novos veículos circulando nas ruas desta capital alencarina tem aumentado, talvez, quase que exponencialmente. O fato é que possuir carro individual tem sido um dos sonhos mais realizados nos últimos dez anos. Bem, não vou mentir que também quero um dia ter o meu, mas, recentemente, realizei um sonho maior e que vem desde a época do ensino médio: ter uma bicicleta!

Quando criança, desbravava mundos e fundos do Pirambu, Carlito e Bairro Ellery de bicicleta junto a amigos da vizinhança. O fato é que minhas aventuras foram interrompidas quando meu pai decidiu (ele sozinho) vender minha bicicleta. Quando passei a estudar numa escola longe da minha casa, pedi à minha mãe que comprasse uma bike para mim, de forma que eu pudesse me deslocar com mais rapidez entre minha casa e a escola e vice-versa. A resposta ao pedido foi um NÃO bem redondo – não por maldade, mas por temor que minha bicicleta encontrasse o “verdadeiro dono”. Resultado: três anos à pé, ora no sol quente, ora sob chuva torrencial.

Ao contrário do que diz o poeta, tristeza tem fim e, finalmente, consegui minha tão sonhada bicicleta. Veio das mãos de meu namorado, sensibilizado que ficou pela minha história de frustrações sem uma bicicleta (uma pequena lágrima escorre do rosto dos leitores, posso ver!). Comprou-me um modelo muito bonito, com uma pintura branca com vermelho e prata. A novidade para mim ficou por conta das 21 marchas. Detalhe interessante: nunca havia tido bicicleta de marcha.

Fomos para o passeio inaugural. Destino: avenida Beira Mar via avenida Presidente Castelo Branco, a famigerada Leste-Oeste. Pensei que sentiria maior temor dos carros que passavam logo ao lado, mas consegui passar por eles são grandes dificuldades. Aliás, a dificuldade ficou completamente a cargo das marchas. Absolutamente não sabia como usá-las e cometi um pecado fatal: passá-las sem estar pedalando. Estava tensa, é verdade, quiçá aterrorizada! Cheguei ao destino, mas não parava de pensar na volta. Meu namorado já havia me alertado sobre a terrível subida da Leste Oeste, próxima ao Corpo de Bombeiros. Lá fomos nós e, novamente, encontrei-me às voltas com as marchas. Procurava por uma mais levinha, que não me fizesse cansar tanto, mas a realidade é que a primeira, de número 1, fazia minhas pernas doerem tanto quanto a mais pesada, de número 7. Finalmente, passamos pela subida terrível e chegamos em casa. Na avaliação de meu namorado, preciso melhorar muito! Nada que a prática não traga com o tempo.

Superequipada – Ainda não possuo todos os itens necessários a uma pedalada com segurança. Por exemplo, não tenho ainda a sinalização luminosa nem o sinal sonoro (senti falta dela quando tive de passar por trás de um carro que dava ré; o jeito foi gritar…), mas tomei “de empréstimo” o capacete amarelo com preto de meu namorado e um de seus shorts acolchoados (esse sim, diria, imprescindível para que não fiquemos com a poupança dolorida). Além desse material, é muito importante se alongar antes – isso evita dores posteriores e as temíveis cãibras.

Meio pedestre, meio condutor – Ao longo dos dois percursos que até agora fiz junto a meu namorado – que tem anos de experiência de bike pela cidade -, percebi que ser ciclista é um misto de pedestre e condutor. Por exemplo: se você se aproxima do semáforo, o ideal é reduzir a velocidade buscando não parar até que a luz verde de acenda, tal qual os carros fazem, geralmente. Mas se não for o suficiente, pare na faixa (claro, isso também depende do movimento do cruzamento e da localidade). No entanto, também é possível cruzar a faixa para mudar de sentido e pegar outra rua. Nos cruzamentos mais calmos, mesmo que estejamos na preferencial, é necessário dar vez ao motorista (aprendi isso depois de levar carão por ter passado na frente de um carro…).

Percebi que andar de bicicleta em Fortaleza é muito viável. Acho que o que basta é um pouco mais de respeito aos ciclistas e mesmo a implantação do sistema cicloviário, cuja lei já existe (Lei nº9701/10), oriunda de projeto do vereador João Alfredo. Quem sabe, assim, mais pessoas não iriam aderir às bikes!

Dias sem carro

Não comemoro o Dia Mundial sem Carro. Afinal, todos os meus dias SÃO sem carro. Sou usuária do transporte público de Fortaleza. Confesso que não por opção, mas por falta de. Se pudesse, certamente, teria um carro. A cidade cresceu, a demanda por transporte cresceu. No entanto, a infraestrutura necessária para dar conta disso tudo não cresceu junto.

Quando se pensa em fazer algo no Dia Mundial sem Carro, a maioria das pessoas pensa em usar a bicicleta em substituição ao automóvel. Eu, particularmente, não vi ninguém fazer qualquer reflexão sobre o transporte público. A bicicleta precisa ser, sim, um nicho importante da política de transporte, mas os ônibus, trens e metrô precisam ser igualmente incentivados.

O Dia Mundial sem Carro poderia ter sido uma ótima oportunidade para debater esses modais. Ao dar mais qualidade a eles, certamente o uso do carro particular seria colocado em segundo plano. Em uma cidade bem comunicada, com transporte público dando acesso a diferentes pontos da cidade e, especialmente, com rapidez e pontualidade, as pessoas pensariam duas vezes em comprar um carro.

Quando tenho que pegar um ônibus ou topic, preciso sair com uma hora de antecedência para chegar a tempo a meu destino. E com a possibilidade de congestionamentos, que têm sido cada vez mais constantes a qualquer hora do dia, a perda de tempo no deslocamento é maior.

No que se refere a rapidez, o metrô é um veículo incrível. Mas é triste saber que uma cidade espera há 12 anos pela conclusão das obras que trarão essa nova forma de deslocamento. Em uma cidade grande, onde a rapidez dos fatos e das informações imperam, as pessoas ainda se deslocam lentamente…

O dia em que o Theatro José de Alencar fechou as portas

A frase do título é literal. Numa quinta-feira à noite, na frente de dezenas de pessoas que se sentiam frustradas por não ter conseguido entrar no Theatro José de Alencar, um funcionário move as duas bandas da porta e as fecha. O gesto, para mim, tomou um significado superdimensionado: me senti desprestigiada no mais importante teatro do Ceará, que sempre me recebeu tão bem. Além de mim, outra pessoa se sentiu assim e ficou magoada, chamando, inclusive, o tal funcionário de mal educado.

Tudo isso aconteceu na noite do concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Apresentação única no Ceará. Eram cerca de 20h10 quando cheguei e já encontrei as sempre receptivas portas do teatro fechadas. Uma multidão de gente indignada lotou a calçada e insistia com os funcionários do teatro, por entre as fendas dos portões laterais, de que poderia haver uma forma de assistir a apresentação.

Imediatamente, me veio à memória as cazuelas do teatro Colón, em Buenos Aires, espaços cretinamente estreitos atrás das cadeiras superiores de onde se pode assistir aos espetáculos de pé. Quem tem as pernas curtas ou tremendamente flexíveis pode tentar sentar… Nessa noite no Theatro José de Alencar, as cazuelas cairiam bem.

Custo a entender como os 780 assentos foram tão prontamente ocupados. Não quero dizer que se trate de um evento pouco interessante – muito pelo contrário! E a quantidade de gente que ficou do lado de fora prova isso -, mas eu e todos que estavam lá, encarando as portas fechadas, não imaginavam que a lotação seria tão rápida. Além disso, parece-me que havia uma certa “lista de convidados”: um senhor chegou para uma das funcionárias, também falando com ela entre as fendas dos portões, apresentou-se e ela conferiu se ele estava com fulano de tal. Em uma apresentação gratuita, haver uma lista de convidados é, no mínimo, uma desigualdade e, até mesmo, um desrespeito para com os demais (para não dizer uma sacanagem), uma vez que a lógica seria que os assentos fossem ocupados por ordem de chegada.

Não diria que a lição dessa noite seja “chegue mais cedo da próxima vez”. Acho que a forma de entrada para espetáculos desse gabarito deve ser repensada pela direção do teatro. Poderia haver, por exemplo, a distribuição de ingressos, o que evitaria a chateação de muitos por dar viagem perdida e ainda perder apresentações raras como essa.

PS. O rapaz que chamou o funcionário de mal educado conseguiu entrar – sabe-se lá como…

Turismo em Fortaleza

Estive recentemente em Buenos Aires e minha experiência de turista na cidade portenha me fez refletir sobre o turismo de nossa capital Fortaleza. Um fato em especial colocou mais lenha na fogueira de minhas ponderações. Encontrei na rua um casal de cariocas e eles comentaram já terem visitado Fortaleza. No entanto, suas referências aos locais onde estiveram nada tinham a ver com a cidade. Somente listaram praias do Ceará – nenhuma de Fortaleza. E mesmo que tivessem falado na Praia do Futuro e na Praia de Iracema, por exemplo, eu ainda não estaria satisfeita com o modelo de turismo que se faz aqui.

Quando se fala em turismo nas grandes capitais do País, sempre existe vários apelos para os espaços urbanos, para a arquitetura, para a história. Em Fortaleza, isso é muito escasso, embora tenhamos locais interessantíssimos do ponto de vista arquitetônico – como o Teatro José de Alencar e a Praça do Ferreira – e histórico, como o Forte de Nossa Senhora da Assunção e o Marco Zero, na Barra do Ceará.

O apelo para as belezas naturais – e aqui não estou demerecendo elas do ponto de vista turístico, pois este nicho é bastante forte – está inclusive nos souvenirs. Ao procurar uma camiseta para dar de presente a um amigo argentino, a maioria das estampas se referiam às praias e ao sol. Com bastante insistência, encontrei uma com os desenhos da Coluna da Hora, da estátua de Iracema, do Theatro José de Alencar e do Marco Zero.

É preciso promover e valorizar estes aspectos da nossa história não só para os turistas que visitam Fortaleza como para os habitantes; estimular, realizar e ampliar visitas aos espaços da cidade para que os visitantes saiam daqui conhecendo mais a respeito da formação de nossa cidade e de sua população. Dessa forma, as fotos dos turistas estamparão muito mais que areia e mar.

A caneta e o papel

Tenho internet ilimitada à minha disposição todo os dias. Tenho os endereços de email de amigos que não moram na cidade, não moram no Estado, não moram no País. Mantenho contato com eles pelo Orkut, pelo MSN e pelo Facebook. Ainda assim, nada tira de mim a satisfação de sentar na mesa da cozinha e ficar rodeada de papéis, envelopes, cartões e recortes coloridos.

Escrever cartas é uma das coisas que mais gosto de fazer – está no mesmo nível de ler e ouvir música. Uma vez, expliquei para um amigo que mora no Interior porque preferia as missivas ao email: nada substitui o sentimento expresso somente na caligrafia, pelas letras cuidadosamente desenhadas sobre o papel.

Embora enviar email seja mais prático e rápido, o ato [faça você essa reflexão] está sempre associado a outras atividades no computador – à pesquisa do Google, à leitura de emails e dos  posts do Twitter… Já escrever cartas é um ato único e prioritário: tudo à nossa volta, desde a escolha do papel no qual escrever até a confecção do envelope [outra coisa muito legal em escrever cartas é deixar a criatividade fluir e inventar envelopes diferentes] é dedicado exclusivamente a essa atividade.

Além do prazer em si, escrever cartas traz ainda outro “benefício”: mantém a caligrafia. Já ouvi várias pessoas relatando que suas letras se descaracterizaram após anos de uso intenso do teclado do computador. A máquina nos desacostuma ao papel e à caneta! Na faculdade, ouvi o engraçado relato de uma amiga que, frente a um trabalho que deveria ser entregue escrito à mão, primeiro digitou e depois, consultando a tela, copiou o que tinha escrito no Word para a folha de papel.

Confesso que tenho muita aproximação com o computador, mas procuro sempre alimentar a prática da escrita de cartas para me desligar um pouco do mundo e focar a atenção em só uma janela: aquela que me remete para o pensamento e para as expectativas dos amigos ansiosos por receber um envelope selado e carimbado.

Embrutecer em Fortaleza

Este parece não ser um processo nem muito difícil nem muito longo quando se vive em Fortaleza.

Aprendi, quando criança, que se deve sempre cumprimentar as pessoas com bons dias, boas tardes e boas noites. E assim o faço até hoje. Deveria ser uma coisa de praxe, mas parece que não é. Nunca pensei que veria uma pessoa se surpreender ao receber um simples olá. Aconteceu na última sexta em um supermercado. Cheguei para pagar as compras e disse olá para a caixa.

– Já sou tão acostumada a não ser cumprimentada que nem falo mais nada. Quando cumprimentava um cliente, ele não respondia – desabafou a moça.

Por conta dessa indiferença das pessoas umas com as outras, presenciamos esses processos de embrutecimento. Vai ver até o motorista e o cobrador das topics lidam com a indiferença dos outros e, por isso, são grossos daquele jeito que contei no último post. Vai ver aconteceu a mesma coisa com o cobrador de um ônibus que peguei hoje, que duvidou que eu tivesse pago a passagem mediante crédito inserido na carteira de estudante e me chamou de arrogante por eu ter-lhe dito que ele é quem teria de ter visto no GET [a máquina que lê o cartão] o desconto da passagem.

Não deveria ser assim, mas é incrível como o ato de  cumprimentar é capaz de mudar as feições de uma pessoa nessa cidade, especialmente daquelas que estão ali prestando um serviço tão rápido – no caso dos caixas de supermercado. Tenho um amigo que, além de provocar essa mudança no semblante desses profissionais, ainda provoca risos neles. Estou certa que isso contribui – e muito- para que o dia deles fique mais feliz.

Às vezes, me parece que os cidadãos dessa cidade procuram cada vez mais se isolar – e esse isolamento começa justamente nessa ausência de diálogo, na ausência de um simples olá. E o mais triste é que esse tipo de comportamento não requer nenhum esforço – é somente um reflexo de educação.

Não entendo o que se passa na cabeça das pessoas que agem assim. Daqui a algumas décadas, se as coisas continuarem nesse rumo, perderemos nosso cartaz de povo simpático e receptivo.