Livraria da Calçada

O nome parece bem simpático, não? Lendo assim, podemos pensar que trata-se de um estabelecimento cuja calçada seja uma referência por ser diferente das demais ou por ter algo de atrativo nela. Literalmente, essa livraria a que me refiro é na calçada. Fica na esquina das ruas Pedro I com Major Facundo, no Centro de Fortaleza, na calçada de um prédio abandonado. Com uma escadaria curta e uma ampla calçada, o local foi adotado pelo vendedor de livros Alexandre como seu ponto comercial e espaço de exposição de sua mercadoria. O nome “Livraria da Calçada” está escrito em um cartão-adesivo que ele entrega aos transeuntes que param para dar uma olhada nos títulos.

Alexandre é um desses vendedores que demonstram muita atenção para com o possível cliente. Dá bom dia, diz para ficarmos à vontade e ressalta que está à disposição para tirar qualquer dúvida. Eu já passara pela Livraria da Calçada outras vezes, mas no último sábado parei um pouco para olhar o que havia por lá.

Comentei uma vez com colegas que o desejo de possuir livros é tamanho que, às vezes, necessito exercitar o auto-controle para me conter. Na Livraria da Calçada, não ouvi a voz da consciência nem estava disposta a isso – estava à procura de uma edição da Bíblia bilíngue ou trinlígue, o que significa que eu já estava aberta a iniciar a compra desembestada de livros.

Na borda do espaço reservado aos livros (um detalhe é que, ao contrário de outros vendedores do Centro, a Livraria da Calçada não impede o livre trânsito dos pedestres), encontrei um título de comunicação – minha área profissional. Peguei o livro, perguntei o preço, mas não comprei. Mantive o foco na Bíblia bi/trilíngue. Disse a Alexandre que voltaria dentro em pouco para comprá-lo.

Depois de algumas pesquisas sem sucesso, finalmente achei a Bíblia trilíngue – português, inglês e espanhol -, uma edição pocket, lançamento em segunda edição, a letra miúda de doer na vista dos que já acumulam alguns graus e têm de corrigi-los com óculos (não é o meu caso, ainda…). Depois de um pastel com caldo de cana do Leão do Sul na Praça do Ferreira, voltei à Livraria da Calçada. Pensei comigo: Alexandre não há de lembrar-se de mim. Ledo engano…

“Você voltou. Você gosta mesmo de livros”. Um doce para o Alexandre. Só com isso transpareceu a alma de vendedor. Um a zero para ele. Perguntei-lhe se tinha uma gramática de espanhol. Mostrou-me uma básica, no que lhe disse que precisava de uma mais completa, uma vez que estudava espanhol. Dois a zero para o vendedor: o cliente dera uma pista de um de seus interesses. Aliás, dei duas pistas: também procurava a edição em espanhol de A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, também em decorrência do curso de espanhol. “Eu não tenho esse, mas tenho este de Sidney Sheldon em espanhol.” Três a zero. “Um livro interessante que acredito que você gostaria de ler é ‘Nas margens do rio Piedra eu sentei e chorei’, pois fala bastante da Espanha”. Quatro a zero para o Alexandre, que se muniu de poucas informações a respeito de meus interesses literários para desempenhar sua arte de vender.

As técnicas de vendas de Alexandre não funcionaram como as tais balas mágicas da teoria da comunicação: não foram irresistíveis. Levei exatamente o livro de comunicação pelo qual me interessara a princípio, mas saí com uma boa impressão do Alexandre e de sua Livraria da Calçada. Ele disse-me que está organizando sua entrada no comércio pela internet através da Estante Virtual. Torço para que dê certo e ele continue incitando o desejo de outros compradores inveterados de livros Brasil afora.

O dia em que o Theatro José de Alencar fechou as portas

A frase do título é literal. Numa quinta-feira à noite, na frente de dezenas de pessoas que se sentiam frustradas por não ter conseguido entrar no Theatro José de Alencar, um funcionário move as duas bandas da porta e as fecha. O gesto, para mim, tomou um significado superdimensionado: me senti desprestigiada no mais importante teatro do Ceará, que sempre me recebeu tão bem. Além de mim, outra pessoa se sentiu assim e ficou magoada, chamando, inclusive, o tal funcionário de mal educado.

Tudo isso aconteceu na noite do concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Apresentação única no Ceará. Eram cerca de 20h10 quando cheguei e já encontrei as sempre receptivas portas do teatro fechadas. Uma multidão de gente indignada lotou a calçada e insistia com os funcionários do teatro, por entre as fendas dos portões laterais, de que poderia haver uma forma de assistir a apresentação.

Imediatamente, me veio à memória as cazuelas do teatro Colón, em Buenos Aires, espaços cretinamente estreitos atrás das cadeiras superiores de onde se pode assistir aos espetáculos de pé. Quem tem as pernas curtas ou tremendamente flexíveis pode tentar sentar… Nessa noite no Theatro José de Alencar, as cazuelas cairiam bem.

Custo a entender como os 780 assentos foram tão prontamente ocupados. Não quero dizer que se trate de um evento pouco interessante – muito pelo contrário! E a quantidade de gente que ficou do lado de fora prova isso -, mas eu e todos que estavam lá, encarando as portas fechadas, não imaginavam que a lotação seria tão rápida. Além disso, parece-me que havia uma certa “lista de convidados”: um senhor chegou para uma das funcionárias, também falando com ela entre as fendas dos portões, apresentou-se e ela conferiu se ele estava com fulano de tal. Em uma apresentação gratuita, haver uma lista de convidados é, no mínimo, uma desigualdade e, até mesmo, um desrespeito para com os demais (para não dizer uma sacanagem), uma vez que a lógica seria que os assentos fossem ocupados por ordem de chegada.

Não diria que a lição dessa noite seja “chegue mais cedo da próxima vez”. Acho que a forma de entrada para espetáculos desse gabarito deve ser repensada pela direção do teatro. Poderia haver, por exemplo, a distribuição de ingressos, o que evitaria a chateação de muitos por dar viagem perdida e ainda perder apresentações raras como essa.

PS. O rapaz que chamou o funcionário de mal educado conseguiu entrar – sabe-se lá como…

A Praça do Ferreira e eu

“Vamos passear na praça?” o convite que o Vida&Arte no domingo passado, 13, me  fez foi irresistível. Nas suas páginas, os relatos sobre diferentes praças da cidade me trouxeram de volta memórias do tempo em que eu, ainda estudante de Jornalismo e estagiária do jornal O POVO, cruzava três praças do Centro para chegar ao prédio da avenida Aguanambi.

De todas as praças do bairro, confesso que a minha preferida sempre foi a Praça do Ferreira – era a primeira do meu percurso até o jornal. De manhãzinha, poucas lojas estavam abertas. As pessoas que passavam por lá seguiam, como eu, para mais uma jornada de trabalho. Eu andava pela praça com uma cara de epifania – até descuidada, perigando tropeçar numa ou noutra pedra portuguesa solta. Indo no sentido da avenida Duque de Caxias, procurava olhar pra trás para ver o Hotel Excelsior e sonhar: ai, como eu queria morar ali… Como não podia deixar de ser, a Coluna da Hora me despertava para apressar o passo.

No fim do expediente, sempre dava um jeito de passar novamente pela Praça do Ferreira. Num desses retornos, encontrei o fotógrafo Jarbas Oliveira clicando o vai e vem do lugar. Noutro, o repórter do O POVO, Tiago Braga, me acompanhou no fascínio de ver, no final da tarde, a fonte da Coluna da Hora ligada, jogando gotinhas d’água no nosso rosto sempre que o vento vinha na nossa direção.

Tais quais os meus, os relatos dos repórteres que visitaram as diferentes praças do Centro são muito pessoais, cheias de lembranças. As praças, pelo jeito, têm o dom de marcar na gente esses momentos singelos. Espero que elas possam ser mais bem cuidadas e preservadas para que nossos pequenos cidadãos, ao chegarem à idade adulta, contem aqui histórias como estas.